ERIKA JANUZA: "SER MULHER JÁ É DIFÍCIL. SER MULHER E NEGRA É MAIS DIFÍCIL AINDA"

Carlos Ed

Erika Januza fala com calma e pausadamente. Tamanha serenidade, contudo, contrasta com a perseverança que a mineira de Contagem – que interpreta Raquel, empregada doméstica que estudou e tornou-se juíza em O Outro Lado do Paraíso – teve para driblar a infância e a adolescência pobres e vencer na vida. “Assim como a Raquel, penso antes de agir. Quando quero um negócio também vou atrás. Sou obstinada”, conta a atriz de 32 anos, que, mesmo sendo um dos destaques da novela das 9 da Globo, não está imune ao racismo. “O fato de ser atriz negra não me livra do preconceito diário”.

Filha da ex-empregada doméstica Ernestina, de 54 anos, com o serralheiro Edson – que morreu quando a atriz tinha 19 anos -, Erika aprendeu a lidar com o preconceito ainda criança. “Ouvia que meu cabelo era ruim, cabelo de Bombril. Por isso, assim que pude, comecei a alisar”, diz ela, que fez alisamento nos fios até ser escalada para viver Conceição, protagonista da minissérie Suburbia, exibida em 2012. “Senti que a minha identidade mudou quando assumi meu cabelo crespo. Mudei por fora, mas mudei mais internamente. Depois que deixei de alisar meu cabelo, mudei minha visão de vida”, lembra.

A baixa autoestima, aliás, influenciou a trajetória de Erika, que, na verdade, sonhava em ser modelo, e não atriz. “Minha decisão de querer ser modelo tem um pouco de influência do preconceito que sofria. Me achava feia e tinha problemas com minha autoestima”, explica. A interpretação chegou na vida da atriz por vias tortas. Ao pensar que estava mandando suas fotos para se candidatar a um teste para uma campanha publicitária, ela acabou enviando o material para a produção de elenco de Suburbia. “Já estava meio casca grossa. Falar que era teste para a Globo não me fez comemorar nem falar para as pessoas porque não acreditei. Achei que era mais uma das mentiras que já tinha passado na vida. Só fui acreditar quando me enviaram uma passagem de avião”, conta.

Na novela O Outro Lado do Paraíso, Raquel foi humilhada por Nádia, papel interpretado por Eliane Giardini, que não se conformava em ver o filho, Bruno (Caio Paduan), apaixonado pela então empregada doméstica. Erika também já sofreu –e muito – com o racismo alheio. “Já tive relacionamento que a pessoa falou: ‘Não vamos sair de casa. Não vamos andar de mãos dadas’. Até entender depois que o problema era eu, demorou”, diz ela, recordando outra situação que passou no Rio, onde mora há dois anos. “Há pouco tempo, no trânsito, gritaram para mim: ‘Tinha que ser neguinha mesmo!’ Fiquei tão nervosa que parei o carro. Não tive reação”, conta.

Solteira há dois anos, Erika garante que a beleza não a ajuda. “Não sou uma pessoa que é cantada a cada esquina”, diverte-se, acrescentando que os homens olham, mas não se aproximam. “Quando vou a algum lugar, a quantidade de mulheres que chega perto de mim para me elogiar é enorme. Já os homens, não falam comigo”, conta. Mas quando se interessa por alguém, ela corre atrás. “Nem sempre o que a gente vai atrás quer dizer que vai dar certo (risos). Não sou atirada. Também vejo se a pessoa demonstrou interesse. Sou uma mulher de atitude”, admite.

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