Presidente americano ameaçou James Comey dizendo que espera que não haja vazamentos de suas conversas | Foto: Saul Loeb / AFP / CP
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou nesta sexta-feira o ex-diretor do FMI James Comey, intimado publicamente ao silêncio sobre as circunstâncias pouco claras de sua demissão na terça-feira. Desde a demissão abrupta, o presidente republicano nada fez para acalmar os ânimos ou tranquilizar os críticos que, sem falar em crise constitucional, temem uma tentativa de intimidação ou de desestabilização da polícia federal americana, e mais amplamente da Justiça, da qual o FBI é dependente.
"James Comey melhor que não haja 'fitas' de nossas conversas antes que comece a vazar para a imprensa!", escreveu Trump em uma série de tuítes matinais nos quais atacou seus críticos e a imprensa pelas reações à demissão de Comey.

O tuíte pareceu uma ameaça e recordou o sistema implementado pelo presidente Richard Nixon (1961-1974), que gravava suas conversas telefônicas e na Casa Branca com seus interlocutores, um hábito que voltou contra ele no escândalo Watergate. Na imprensa americana, muitas fontes anônimas dentro da Casa Branca e da administração descreveram um ambiente confuso e de tensão nos últimos dias, com a versão oficial do afastamento ganhando ares cada vez mais pessoais.
Inicialmente, a razão oficial dada sobre a demissão foi o comportamento de James Comey no final da investigação sobre os emails de Hillary Clinton em 2016. Ele foi criticado por ter realizado uma coletiva de imprensa e depois ter anunciado a retomada das investigações poucos dias antes da eleição presidencial. A Casa Branca garantiu que o afastamento nada tinha a ver com a investigação em curso do FBI sobre o eventual conlui entre membros da equipe de campanha de Donald Trump e a Rússia.
Comey silencioso
Mas o bilionário acabou por declarar à NBC na quinta-feira que sempre teve a intenção de demitir Comey da chefia do FBI, o que contradiz a informação da Casa Branca de que o presidente agiu por recomendação de altos funcionários da Justiça. "Quando me decidi, disse a mim mesmo 'esse negócio com a Rússia, Trump e a Rússia, é uma história inventada'". Há meses, o presidente republicano tem se mostrado furioso com o fato de seu nome ser mencionado na investigação, insistindo não haver provas de conluio, e acusando a mídia de alimentar artificialmente o caso em vez de cobrir suas decisões econômicas ou de segurança.
Segundo o próprio Trump, ele pediu diretamente a James Comey, em conversas por telefone, que confirmasse que não era alvo da investigação. O grau de descontentamento do 45º presidente americano era claro em seus tuítes nesta sexta-feira. "Os meios de comunicação falsos estão fazendo horas extras hoje!", escreveu. "Mais uma vez, a história de conluio entre os russos e a campanha Trump foi inventada pelos democratas como um pretexto para justificar sua derrota na eleição", ressaltou.
O presidente republicano introduz confusão entre as diferentes vertentes da investigação. O FBI investiga não só um possível conluio, mas também de forma mais geral sobre o ataque hacker russo durante a campanha. A realidade destas interferências está clara: os seis oficiais da inteligência americana, dois dos quais foram nomeados por Donald Trump, reafirmaram na quinta-feira que a Rússia havia tentado influenciar as eleições americanas.
O chefe interino do FBI, Andrew McCabe, declarou ainda que a investigação russa era da maior importância. Por enquanto, o dique republicano se mantém no Congresso, onde a oposição democrata permanece isolada em sua chamada para a nomeação de um promotor especial para garantir a independência da investigação.
Mas dezenas de republicanos expressaram seu desconforto, criticaram o tom do presidente, defenderam o ex-diretor do FBI e ainda pediram a criação de uma comissão independente de inquérito sobre a Rússia. Quanto a Comey, não falou publicamente desde sua demissão. Ele foi convidado a se explicar ao Senado na próxima terça-feira mas, se aceitar, a reunião será realizada à portas fechadas.