Domingo em família – a dela!

Debh Valois

Após quarenta minutos de intermináveis despedidas e diabólicos acordos para um próximo encontro... finalmente foram embora.

Gente bacana, a família da minha mulher... muitas crianças, uma sogra amabilíssima que adora criticar os menos afortunados pra não dizer desempregados, se você não se encaixa numa dessas categorias está salvo. O sogro concorda com tudo apenas balançando a cabeça, coitado, ai dele se abrir a boca... fico imaginando o que de pior poderia lhe acontecer caso o fizesse, além de já ser casado com a megera.

Muitas crianças e alguns cunhados gordos muito folgados. Injustiça... tem um que opina muito bem aonde devo fazer minhas aplicações financeiras ou onde e como devo plantar minhas margaridas.

Minhas doces margaridas – PISOTEADAS!!!

Após uma manhã super quente choveu a tarde toda. O gramado da chácara ficou enlameado e a casa toda está com marcas de pés de barro e graminhas molhada. Quanta criança!!!

A cozinha... bem, a cozinha é um espetáculo à parte. Panelas do almoço empilhadas quase até o teto... exagero? Agora se juntaram à elas a louça do café da tarde. Ninguém vai embora antes do café da tarde, duvido que exista uma família que vá.

A máquina de lavar trabalha a todo vapor, que ironia, para ver se salvam as toalhas de banho da casa que da piscina foram parar direto no gramado... minto, tem algumas - molhadérrimas - em cima do sofá e outras debaixo das cadeiras da varanda.

Os copos descartáveis dão um colorido especial ao quintal... quantos dias se leva pra sumir com todos eles? Em cima da TV também têm algumas pilhas deles.

Mas nada se compara ao rastro descomunal deixado pelas crianças. Nada! Somente quem já sobreviveu a uma duzia de crianças correndo a tarde toda – debaixo de chuva – entre uma piscina gelada e um chuveiro quente, sabe do que estou falando.

Você nota em cada detalhe até onde sua vista alcança, e aonde o padre não enxerga, você imagina. E haja imaginação pois meu gato está procurando até agora o prato de ração.

Céus... Pelo menos a chuva parou.

Estou aqui sentado escrevendo porque realmente não faço ideia por onde começo pra recuperar meu doce aconchego... aquilo que eu chamo de lar doce lar.

Os rapazes se esconderam no quarto, se refugiaram no playstation... Acham que não vai sobrar pra eles... Ahhh, a doce inocência da juventude.

Minha esposa parece não notar o pandemônio ao seu redor, claro, afinal muito parecido com seu ambiente natal. Incansável, de um lado pro outro discorre sobre suas próximas atividades, de como precisa estar pronta pra mais uma semana de trabalho após o maravilhoso final de semana. Tem unhas e pernas pra fazer (poderia jurar que nasceram prontas) talvez a sobrancelha também. Está cansada, mas quem sabe ainda sobra um tempinho pra atualizar seu blog... "Nossa quanto tempo não posto nada... que absurdo, não acha amor? Está me escutando?? Amor???

Tenho algumas opções. Vamos a elas:

Poderia pegar disfarçadamente as chaves do meu carro, e sem ligá-lo deslizar até a rua de baixo aonde alçaria vôo à liberdade até um hotel, não muito caro, nem muito cheio, nem muito longe. Quarto LIMPO só para mim, silêncio total, canal privê sem culpa e depois merecido soninho profundo. O único problema seria o retorno. Não quero passar o resto da minha vida em hotéis, a maioria dos meus colegas de trabalho divorciados vivem assim... não, isso eu não quero pra mim.

Daria metade do meu salário em suborno para os meninos assumirem a catástrofe... A outra metade eu apostaria que eles não aceitariam. Ahhh, a doce ilusão dos pais.

Eu poderia simplesmente ignorar a realidade enchendo a cara até apagar na rede, ser picado pelos mosquitos a noite inteira, acordar com uma puta ressaca, uma dor de cabeça do cão... mas para isso precisaria de álcool, destilado de preferência. Como foi a primeira ideia que tive, já descobri que não tenho mais nada desde cerveja até pinga pra caipira. Nem posso lembrar do meu adorado whisky Blue Label, cuidadosamente disposto em exibição no escritório, ou biblioteca ainda não decidimos, para ocasiões muito, muito especiais. Nunca saberei quem o esvaziou... tiveram o cuidado de fazê-lo vagarosamente para não ser notado. Pelo efeito, deduzo que foram as crianças...

Eu juro que faria um café, se tivesse espaço para entrar na cozinha. Tomaria uma banho demorado se tivesse toalha seca ou limpa pelo menos.

Já estou ficando sem ideias quando sou salvo por uma voz amada e estrategicamente melosa vinda do quarto...

"Amorzinhoooôôô, assim que você acabar tudo aí, vem correndo pra cá que vou estar prontinha te esperando... Não demore muito mooor".
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