Um estudo publicado na edição de agosto da Public Health[1] revela que as estatísticas nacionais têm subestimado a importância das doenças hipertensivas (DHIP) no Brasil. A análise de registros do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, disponível no DATASUS, mostra que quando as DHIP são avaliadas como causas múltiplas de morte elas são mencionadas até quatro vezes mais do que quando se considera apenas a causa básica do óbito.
Para os pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), esses achados reforçam a necessidade de se repensar o modelo declaração de óbito (DO) utilizado no país. O cardiologista Dr. Paolo Blanco Villela, da UFRJ, autor do estudo, falou sobre os dados em entrevista ao Medscape.
A investigação englobou dados de mortes registrados entre 2004 e 2013 no SIM. O grupo utilizou os códigos da CID-10 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde) para classificar as causas básicas dos óbitos. Os resultados apontam que as DHIP foram mencionadas em 16,5% das DO, enquanto as doenças cerebrovasculares (DCBV) foram citadas em 11,6%. Quando as DCBV foram a causa básica de óbito, as DHIP foram mencionadas em 40,9% das DOs. Por outro lado, quando as DHIP foram a causa básica de óbito, DCBV foram citadas em apenas 5% das DO. Além disso, quando as doenças cerebrovasculares foram mencionadas sem as doenças hipertensivas, elas foram selecionadas como causa básica da morte em 74,4% das vezes, mas, quando as DHIP foram citadas nas declarações de óbito sem as DCBV, doenças hipertensivas foram selecionadas como causa básica de óbito em 30% dos casos.
O grupo notou ainda que houve uma chance menor de as DHIP serem selecionadas como causa básica de óbito, sendo mencionadas como causa múltipla cerca de quatro vezes mais do que como causa básica de morte.
O Dr. Villela explica que a causa básica utilizada nas estatísticas oficiais do Ministério da Saúde é resultado da aplicação de um conjunto de regras e princípios a todas as causas mencionadas nas partes I (doença ou estado mórbido que causou diretamente a morte e causas antecedentes) e II (outros estados patológicos que contribuíram para a morte) da DO[2].
"A análise por causas múltiplas permite avaliar todas as causas mencionadas, mas que não foram selecionadas como causa básica. Desta forma, as doenças já estão registradas nas DO e o aumento observado é decorrente da metodologia utilizada que nos permite enxergar além da causa básica", diz.
Região Nordeste tem as maiores taxas de mortalidade por DHIP
Os autores fizeram ainda análises considerando as proporções de menções nas declarações de óbito de DHIP e DCBV como causa básica de óbito e em qualquer campo da declaração por região do país e por ano.
Eles notaram que a frequência de citação de DHIP em qualquer linha da DO aumentou progressivamente de forma mais acentuada do que a menção de DHIP como causa básica de óbito em todas as regiões.
"De acordo com os dados de 2013, os maiores aumentos nas DHIP ocorreram nas regiões Sul e Sudeste. Entretanto, a análise deste dado é mais complexa. Na Região Nordeste, por exemplo, apesar de o aumento registrado ter sido inferior ao da Região Sudeste, lá se registraram as maiores taxas de mortalidade por DHIP, tanto como causa básica quanto como causa múltipla, mantendo a relação relativamente estável e mais baixa do que a da Região Sudeste", explica o Dr. Villela, destacando que, como a análise considera o que é mencionado na DO, regiões onde o registro é mais completo e acurado podem ter taxas com aumentos mais pronunciados.
Aumento de citações de DHIP e diminuição de DCBV: melhora no tratamento hipertensivo
O estudo mostra que, na última década, houve aumento do número de citações de doenças hipertensivas nas certidões de óbito e diminuição de citações de doença cerebrovascular.
Segundo o Dr. Villela, a equipe identificou que, quando estão mencionadas as DHIP e as DCBV na mesma declaração de óbito, na maioria das vezes, as DCBV são selecionadas como causa básica.
"As DHIP englobam todos os códigos do Capítulo IX da CID-10 (Códigos I10-I15), incluindo a própria hipertensão arterial sistêmica, doença crônica passível de controle, porém sem cura e com prevalência em torno de 30% no país. Assim, o maior controle da hipertensão poderia provocar a redução das DCBV, com consequente redução do número de suas menções nas DO", diz o pesquisador.
Por outro lado, a hipertensão arterial, mesmo controlada, estaria 'presente' no momento do óbito e não deixaria de ser registrada. Desta forma, na ausência de registro das DCBV, a hipertensão arterial poderia ser selecionada como causa básica, com aparente aumento paradoxal nas suas taxas de mortalidade nas estatísticas oficiais, afirma o Dr. Villela.
Óbito deve ser interpretado como evento multicausal
Para o cardiologista, os achados da pesquisa mostram que a metodologia de seleção de causa básica nem sempre consegue escolher adequadamente a causa mais próxima do evento que resultou no óbito.
"Nesse caso, acreditamos que no modelo atual nenhuma regra conseguiria fazê-lo, pois com o aumento da expectativa de vida observado nas últimas décadas, o óbito deveria ser interpretado como um evento multicausal, fruto das relações complexas entre as várias doenças crônicas e/ou agudas que acometem o indivíduo", afirma.
A DO apresenta, segundo o Dr. Villela, um modelo antigo de registro, onde há uma sequência de eventos que culmina no óbito.
"Isso era particularmente interessante no passado, quando as principais causas de óbito eram as doenças infecciosas. Hoje, com o aumento da expectativa de vida da população, o mesmo indivíduo pode apresentar várias doenças crônicas e isso não pode ser ignorado no momento do óbito. Ao contrário, as múltiplas causas registradas nas DO deveriam estar disponíveis de forma mais clara, para que o complexo evento do óbito pudesse ser analisado com maior precisão", considera.
Medscape