Você que não segue nenhuma religião abraamica pode se acalmar porque esse texto não tem caráter religioso. Usarei essa passagem bíblica apenas como uma alegoria, como uma inspiração filosófica.
Segundo a Bíblia, em Daniel capítulo 2, o rei da Babilônia Nabucodonosor teve um sonho e só o hebreu Daniel, de todos os sábios, adivinhou o sonho e o interpretou: Nabucodonosor sonhou com uma grande estátua na forma de Homem, sendo sua cabeça de ouro; peito e braços de prata; ventre e pernas de cobre; pernas de ferro e pés de ferro misturado a barro. Segundo Daniel cada parte da estátua representaria um reino: O ouro representaria o de Nabucodonosor; prata o Persa; bronze o grego; e o ferro e ferro com barro possivelmente o Romano e Europa (os dois primeiros foram confirmados no capítulo 7 e 8).
A veracidade do relato não é importante aqui, apenas seu simbolismo. O interessante foi a justificativa que Daniel deu para os metais escolhidos: Supostamente o império de Nabucodonosor seria maior que todo o restante (2:38-39). Quando li esta parte confesso que fiquei perplexo porque isto está terrivelmente errado: Todos os impérios subsequentes foram maiores territorialmente, mais ricos, poderosos e até mais “morais” do ponto de vista cristão ou judaico (o Império Persa cuidou melhor dos judeus e o Romano se tornou cristão). Então como explicar isso?
Uma explicação possível é que Daniel não se referia a qualidade do Império em si, mas das pessoas que o compunham. Talvez os Homens da época de Nabucodonosor (século 5 e 6 a.C. ) seriam melhores que os do futuro. Mas em que sentido:
Na Antiguidade (até Renascentismo) era comum polímatas (pessoas que dominassem inúmeras áreas de conhecimento) e a havia como ideal de Home buscar ser inteligente E saudável. Veja Da Vinci: Era pintor, matemático, inventor, atlético entre outras coisas. Hoje, mesmo os "intelectuais", dificilmente encontramos polímatas, mas apenas especialistas numa única e exclusiva área (não que isso seja ruim, mas SÓ ter isso é algo nocivo) que muitas vezes nem conseguem usar esse conhecimento para produzir algo para humanidade (isso é péssimo). Por causa de remédios e paliativos poucos se importam com a saúde, no máximo estética, e são extremamente dependentes da tecnologia. Em suma, somos menos inteligentes, mais fracos, mais dependentes, menos saudáveis e menos virtuosos que nossos ancestrais. Isso não é saudosismo, é um fato. E essa “queda” ocorreu gradualmente, porque encontrávamos com grande facilidade polímatas até a Idade Média e Renascentismo. Então qual seria a razão desse declínio?
Isso pode ser explicado com a tendência de comodismo que todos temos. Isso inclusive é biológico: Se uma parte de seu corpo não é mais necessária, o corpo para de gastar energia com ele, por isso seus músculos podem atrofiar caso fique sem fazer atividade física. O mesmo vale para outras áreas: Hoje poucos sabem fazer contas de cabeça, porque tem calculadora; poucos sabem cozinhar, porque há restaurantes e miojo. Assim por diante. Logo, a tecnologia foi uma das razões de termos nos tornado tão molengas.
Outra razão é o próprio Estado. Na época de Nabucodonosor, os Estados não dispunham de tantos mecanismos, administrativos ou tecnológicos, para controlar as pessoas. Basicamente os reis se preocupavam com impostos e proteger razoavelmente fronteiras. Se um rei não gostasse de uma religião podia no máximo perseguir seus sacerdotes e queimar livros. Já hoje os Estados, mesmo os mais democráticos, tem a sua disposição tecnologias e instituições que lhe asseguram grande controle sobre as massas. Um Governante hoje pode saber, manipular ou censurar o que escutamos, lemos e até gostamos. Os olhos do “Grande Irmão” estão por todos os lugares. E não só o controle aumentou, mas também as funções do Estado: Se antes era basicamente segurança, hoje o Estado se encarrega de educação, saúde, caridade etc. Isso muitas vezes gera o comodismo das pessoas.
Quantas pessoas hoje não fazem caridade porque consideram obrigação do Estado? Quantas não cuidam de seus filhos porque esperam isso dos professores?