Além da história, das passagens bíblicas e da sensação de amplitude, a brisa seca que dia e noite movimenta as areias do Sinai carrega também o aroma do terror moderno. Este deserto está se tornando um vasto campo de atentados, como o da última sexta-feira (24), o último e mais sangrento da história egípcia, quando 235 pessoas morreram após ataque de militantes de grupo radical islâmico à mesquita de Bir al Abed, a oeste da cidade de El Arish.
Motivos não faltam para que, nas mesmas areias em que há mais de sete mil anos Moisés entregou a Torá ao povo judeu, um dos mais sagrados mandamentos seja desobedecido de forma ostensiva: Não matarás. A morte se tornou rotina na região, por várias causas, similares às de outros países.
Os radicais islâmicos da Província do Sinai, braço do Daesh, se dividiram em várias células para tentar impor, como tentaram no Iraque e na Síria, a lei islâmica àqueles que eles consideram infiéis. Em abril, o Daesh (conhecido como Estado Islâmico) reivindicou ataque que matou 40 cristãos coptas na região. Em outubro de 2015, 224 pessoas morreram em queda de um avião russo, após explosão também reivindicada por militantes do grupo terrorista.
O alvo da vez foram os sufistas (muçulmanos que preconizam o misticismo), assim como são os yazidis no Iraque, os ismaelitas em vários países e os drusos na Síria e no Líbano. A violência se potencializou por aquelas áreas também fomentada pela revolta da população com o golpe militar de 2013, contra o ex-presidente eleito Mohamad Morsi, da Irmandade Muçulmana, grupo radical que foi o embrião, desde os anos 50, para as organizações Hezbollah, Hamas, Al-Qaeda e Daesh.
Some-se a isso a desmilitarização daquela região, desde o acordo de paz de Camp David, assinado em 1979, pelo primeiro-ministro de Israel, Menachem Begin, e o presidente do Egito, Anwar Al Sadat, que selou a paz entre os dois países. As divisões extremadas entre os militares laicos e os radicais islâmicos servem como estopim para esses ataques, na opinião do professor de negociação e resolução de conflitos da FGV (Fundação Getúlio Vargas),Yann Duzert.
— São dois extremos, duas vertentes do sentimento de injustiça, vinda uma de cada lado. Não há gestão da identidade nesse impasse, nem a aceitação de um território comum, de uma crença comum. A ausência desses elementos em comum cria a incapcidade de negociação atual, em uma situação completamente dividida. É necessário um jeito de negociar moderno para lidar com tal complexidade. Bill Clinton (ex-presidente dos EUA) me falou um dia: todo os conflitos com que me deparei começaram e acabaram em função da questão da identidade.
O parecer de Duzert pode ser visto por muitos como um tanto idealista. Mas ele possui uma lógica verdadeira, apesar de, como o próprio Duzert sabe, não ser algo simples. Acontece que, mesmo nesses grupos mais radicais e até mesmo monstruosos, há alguns militantes que podem ouvir o outro lado. E serem humanizados dia a dia, gesto a gesto, ano a ano, que seja.
Eles até clamam por isso, nas entrelinhas de seus brados contra o Ocidente e os infiéis. Esses poucos militantes, se ouvidos, também pelo outro lado, podem, ao longo do tempo, criar uma atmosfera de conciliação, transformando o inimaginável em possível.
Ou alguém imaginaria que Yasser Arafat, antes inimigo mortal de Israel com a sua OLP (Organização para a Libertação da Palestina) iria algum dia apertar a mão de governantes israelenses? Pois isso ocorreu, assim como a paz entre Egito e Israel, que escreveram um sangrento histórico de guerras ao longo dos anos anteriores.
Para o Ocidente de uma maneira geral, esses gritos irracionais vindos daquela região não oferecem perigo. Realmente, esses grupos não têm apoio de setores mais fortalecidos e dificilmente conseguirão ultrapassar fronteiras de Estados mais estruturados, como Israel.
Atentado em mesquita do Egito deixa ao menos 235 mortos
Mas tal movimentação simboliza também os problemas e os perigos que fervilham ainda no Oriente Médio, formado em sua maioria por países fragmentados e mantidos por ditaduras locais, que acabam alimentando o terror. E assim ameaçando o próprio Ocidente.
A brutalidade na região, neste momento, é apenas camuflada pelo pretexto religioso. Falam mais alto muito mais a miséria, a falta de liberdade, a indiferença. Elas são a maior causa da fúria cega. Criar proteção contra esse grupos é fundamental. Mas isso não basta.
Os jovens do Daesh de hoje são filhos dos militantes exterminados da Al-Qaeda, desde os anos 2000. Estes radicais vão prosseguir assim, e até piorar, nas próximas gerações, se continuarem vendo qualquer perpectiva como um deserto. E a esperança, como uma miragem.