Outro dia, paradas num sinal de trânsito, minha neta mostrou, com voz de revolta, o menino que vinha vendendo balas: “Criança não pode trabalhar, vó. É proibido!”. Fiquei dividida entre a satisfação de ter em casa uma cidadã consciente de seis anos de idade e a impotência diante da iniquidade que, nos últimos tempos, parece ter voltado com força total. É só olhar em volta: nas ruas, nos shoppings, nas portas das farmácias e mercados…
Para quem não viu, os números: em um ano, aumentou em quase 2 milhões o número de brasileiros em situação de pobreza. Segundo o IBGE, no final de 2017 eles já formavam uma legião de 54,8 milhões de pessoas, mais ou menos 1/4 da população. Se formos falar de pobreza extrema – quem dispõe de até R$ 140 por mês – o número cresceu 13% em praticamente todas as regiões do país, e hoje chega a mais de 15 milhões.
Não adianta lembrar com saudosismo dos dez anos (entre 2004 e 2014) em que houve redução de mais de 60% da extrema pobreza, ciclo interrompido pela crise econômica e pela recessão que se abateram sobre o país a partir de 2015. Nem resolve mais também discutir os erros de condução que nos levaram a elas – e é inegável que foram muitos. A esta altura, é chorar sobre leite derramado.
Mas o problema é que o leite está derramado, e é preciso enxugar tudo, arrumar a casa e ainda providenciar mais para misturar ao café das crianças – que voltaram às ruas mas deveriam estar na escola, com três refeições diárias garantidas.
Aí é que está. A legião dos novos pobres que toma conta das ruas (soma dos antigos mais os que perderam emprego e renda com a crise) até fez parte da equação que levou à eleição de Jair Bolsonaro, mas não tem papel de protagonista na narrativa do novo governo. Na junção de fatores que resultou no governo conservador-fundamentalista-religioso que toma posse na semana que vem, o tema do emprego teve sua importância, mas acabou superado pela agenda da segurança e da corrupção.
Bolsonaro e os mais próximos continuam no palanque, investindo num discurso de reforma ideológica. Sérgio Moro vai tocando a questão da segurança e da corrupção. Paulo Guedes cuida do ajuste fiscal e suas reformas – importantes para a retomada do crescimento que pode gerar emprego, mas insuficientes para resolver questões sociais urgentes. De miséria e pobreza, muito pouco temos ouvido.
De políticas sociais, praticamente nada além da vaga promessa de campanha de pagar um 13o salário aos beneficiários do Bolsa Família. Ensacado num ministério da Cidadania que tem mil e uma utilidades, o assunto vem sendo tratado de forma absolutamente secundária – a ponto de o ministro da área, Osmar Terra, ter sido alçado às manchetes graças a uma proposta de proibir a venda de bebidas alcóolicas nas horas mais tardias da noite.
Helena Chagas é jornalista