Bolsonaro quer encher a sua boca de porrada

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O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Sergio Lima / AFP

“Domingo depois da missa” era um marco temporal nas atividades sociais da infância.

Depois da missa, nós, as crianças, poderíamos comprar gibis, andar de bicicleta, jogar videogame.

Os adultos poderiam se empanturrar à mesa para compensar o jejum antes da comunhão.

Nessas rodas, falavam um pouco de tudo, inclusive da vida alheia. Tinham acabado de pedir perdão pelos pecados e, mal saíam da cerimônia, voltavam ao módulo de sempre. Tiravam as lupas do bolso para procurar pecados alheios e antes da segunda-feira já tinham brigado com os filhos, o marido, a mulher, o jovem que vigiou o carro, o dono da banca, o porteiro e todo mundo que encontravam no rastro dos dizerem “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe”.

Era um jeito de confessar em voz alta o que não tinham coragem de dizer em pensamento minutos antes, no ajuste de contas com o divino.

Penso em alguns deles quando lembro o que disse o próprio papa, Francisco, em um sermão de 2017: é melhor ser ateu do que hipócrita.

Na ocasião, ele orientou alguns religiosos a, em vez de se orgulharem de bater ponto em igrejas e catedrais, assumirem: “minha vida não é cristã, eu não pago aos meus funcionários salários apropriados, eu exploro pessoas, eu faço negócios sujos, eu lavo dinheiro, [eu levo] uma vida dupla”.

No domingo 23, depois de visitar uma catedral, em Brasília, Jair Bolsonaro transbordou o peito cheio de paz e amor cristão manifestando a vontade de encher a boca de um repórter do jornal O Globo de porrada. Ele acabava de perguntar ao presidente qual era a explicação para o repasse de R$ 89 mil, feito pelo ex-assessor em prisão domiciliar Fabrício Queiroz, à primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

O presidente, como um homem de fé, poderia ter explicado ao jornalista que aquela não era a ocasião. Era domingo, afinal, e domingo pede cachimbo, não perguntas relacionadas ao trabalho. E se colocado à disposição para atender a qualquer pergunta na segunda-feira.

O problema é que, desde a prisão do amigo e ex-assessor do filho, na casa do advogado da família, em atibaia (SP), Bolsonaro não responde a pergunta alguma de jornalistas nem em dia santo nem em dia da semana.

A repentina perda da voz levou alguns a imaginar que Bolsonaro estava domado, como o touro da música sobre domingo, cachimbo e buracos profundos. Em sua reestreia, mostrou que aquele era mais um mito associado à sua figura, que desbota à luz do sol e tem alergia ao jornalismo profissional.

Bolsonaro prefere os bajuladores, a quem dedica tempos de entrevistas exclusivas e fatias generosas dos bolos publicitários oficiais.

Ao ser confrontado, atirou no que viu e acertou no que não viu. Ou não quer ver. A agressão não foi dirigida, apenas, a um jornalista que num domingo de plantão cumpria sua função profissional ao acompanhar a rotina de um presidente, que enquanto for presidente será escrutinado até quando vai à missa, como todos os antecessores o foram.

Como tréplica, recebeu uma enxurrada de questionamentos no Twitter e viu a primeira-dama parar nos trending topics. Foi-se o tempo em que bastava ameaçar jornalista e botar tarja no jornal para estabelecer censura prévia.

A agressão foi dirigida a todo mundo que quer saber por que a mulher do presidente recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz. Aproveito este espaço para reforçar a perguntar: por quê, presidente?

Se você que me lê não compra versões oficiais nem aceita o culto à personalidade exigida pelo presidente que não quer dar satisfação aos cidadãos que ele deseja transformar em súditos, é melhor não perguntar demais. Ao atacar a imprensa, Bolsonaro deixa claro que quer encher de porrada a boca de qualquer um que o conteste. Amanhã pode ser você.

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